Todo o mundo já viu: segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2019 a 2024 o Brasil perdeu 7 milhões de leitores e, pela primeira vez, o percentual de não leitores (53%) é maior do que o de leitores (47%). Não são números que devamos comemorar, evidentemente.
No entanto, precisamos pôr esses dados em perspectiva. Em 2024, ano em que a pesquisa foi realizada, a população do Brasil estava estimada em 201 milhões de habitantes. Isso quer dizer que ainda havia 93,4 milhões de leitores. Se, em termos percentuais, o número decepciona, em números absolutos percebemos que nem tudo está perdido.
Prova disso é que, todos os anos, o mercado editorial põe em circulação dezenas de milhares de novos títulos. De acordo com a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, também de 2024, foram publicados 44.203 títulos, entre ISBNs novos e reimpressões, com uma tiragem que ultrapassa os 300 milhões de exemplares. Como se pode ver, os números não são nada desprezíveis.
Além disso, há um grande montante de obras invisíveis nas pesquisas: os e-books comercializados diretamente por produtores de conteúdo via Hotmart ou Kiwify; livros de autores independentes, que imprimem o próprio livro e o vendem em eventos e ou diretamente a seu público; livros digitais vendidos via Amazon KDP, que nem sempre têm ISBN. Ou seja: talvez haja gente comprando livros e lendo escondido!
Felipe Lindoso, no prefácio a Livros demais, de Gabriel Zaid, diz palavras muito sensatas:
Existe espaço tanto para livros sobre a criação de minhocas transgênicas quanto para os best-sellers da vida. Até porque, como o mundo dos livros reflete o mundo real, a imensa gama de interesses humanos pode sempre ser objeto de livros. Em cada um desses casos, entretanto, o que importa saber é: a) as minhocas transgênicas certamente terão um público leitor menor, por mais fundamentais que o autor considere as questões que apresenta; b) fazer cada livro chegar ao seu público é que é o busílis; c) fazer que cada vez mais livros encontrem seus leitores é o desafio final.
Nesse sentido, também vale a pena citar as palavras do próprio Gabriel Zaid:
O negócio do livro, ao contrário do de jornais, cinema ou televisão, é viável em pequena escala. No caso dos livros, o patamar econômico, ou o investimento mínimo exigido para ter acesso ao mercado, é muito baixo, o que encoraja a proliferação de títulos e editoras, o florescimento de iniciativas várias e díspares e uma abundância de riqueza cultural. [...]
Agora, os sistemas de impressão sob demanda tornaram viáveis tiragens de cinquenta ou cem exemplares. [Isso] significa que se tornou possível publicar livros que interessam a apenas cinquenta ou cem pessoas.
Tais palavras nos motivam a olhar para o Brasil e ver o copo meio cheio. Afinal, ainda há dezenas de milhões de leitores! Podemos questionar a qualidade do que se lê, podemos duvidar da compreensão das obras lidas, podemos até estar convencidos que a esperança de um país de leitores é pequena.
Contudo, uma esperança pequena é melhor que esperança nenhuma e pode ser suficiente para mover-nos. Editores continuam publicando livros novos todos os meses; escritores continuam sacrificando o sono e o tempo livre para escrever, enquanto lutam pela sobrevivência em outras ocupações; professores insistem em falar da importância da leitura; nas redes sociais, professores e influencers recomendam livros, falam de livros, posam com livros. Há até quem diga que livro virou moda. Uau! Que assim seja! Quando a moda passar, os livros já terão deixado marcas em alguém. E isso já é suficiente para a vida do espírito.
Num ensaio comovente, Stefan Zweig diz que a leitura faz tanto bem para a alma quanto o oxigênio o faz ao nosso corpo. Não é pouca coisa. Blocos de papel marcados por tinta preta são o receptáculo do mundo das ideias. Quando lemos, descobrimos que o mundo é maior do que imaginávamos, que somos menores do que imaginávamos, mas também que a vida pode ser mais rica do que imaginávamos. E não estou falando de dinheiro.
Se, de um lado, o negócio do livro é viável mesmo em pequena escala e, de outro, ainda há dezenas de milhões de leitores, não podemos nos dobrar a uma postura derrotista. Derrotismo catastrofista nunca foi bom conselheiro. Podemos olhar o copo meio cheio.


No universo predominantemente pessimista - como tende a ser o comercial cultural, detidamente o da indústria literária - determinados discursos ancorados em repetir lógicas prontas são aceitos bovinamente.
A força de sua analise e do seu textos me pos à refletir: "flexionar" sobre mim e o que repito confortavelmente.
Obrigado e parabéns. Ganhou mais um assinante.